segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Um incidente de estrada

O seu pensamento pairou no ar como se fosse voo de pássaro. Os prédios iluminados pelo Sol fizeram parte da absorção do seu pensamento. Quase que o conseguiu parar num segundo instantâneo. Sentiu as efervescências de calor e luz juntas num cântico silencioso que compunha o seu pensamento, esgotado de rumar indelevelmente por uma prosternação contínua, exígua.

Descansou o seu pensamento na pedra que compunha um prédio na paisagem que vislumbrava e pensou na composição do mármore, límpido e aclarado por polimentos constantes, cortes executados por feixes de luz atómica precisa e fatal.

A sua vida tinha-lhe oferecido uma compleição preocupada, pesada, algo desajeitada. Tremia por horizontes incomensuráveis que se estendiam no tempo até ao início do Universo.

Imaginou uma estrada onde Maria passeava de carro, sem saber para onde ir, esgotada também pelo tempo e apertada pela incerteza contra o volante do automóvel ligeiro que dirigia, a uma módica velocidade de 80km/hora, rumo a lado algum.

Maria estaria agora a estacionar numa cidade, outra cidade, repleta de sonhos, carícias (e a sua ausência), esquecida pela maior parte dos cidadãos que coabitavam este planeta terra, vastíssimo, tão vasto, sempre comprido demais.

Os últimos seis meses com Maria tinham sido estranhos. Uma relação que não pegava nem se desajustava ao seu dia-a-dia. A sua presença sentia-se por vezes esbatida contra uma luz de candeeiro no seu quarto de primeiro andar. Casa baixa, como tantas outras de Lisboa; o último andar seria o quinto.

Pensava nela quando perdia as forças, exausto dos afazeres do dia-a-dia, da semana-a-semana, do mês-a-mês, do ciclo infinito da vida que o trazia sempre ao mesmo lugar, parado no tempo, contemplando um horizonte que procurava o seu sentido desde os confins do tempo.

Parado no mar, ou na montanha, ou num segundo de situação económica complicada, em cada fundo de poço, em cada fim de aventura, em cada prata reluzindo na montra, em cada tiro largado na escuridão.

Nasceu de novo para a vida, como se o passar duma mensagem nunca esquecesse as outras. Como se em dois módicos segundos a vida se pudesse resumir num viagem abastado por crenças, temores, preocupações, vertigens, semáforos, luz, luz, luz...

Nasceu de novo uma lua no céu, num horizonte qualquer. Sentiu-o como antecipação dum arrepio.

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