sábado, 24 de outubro de 2009

Em casa

Em casa, duas borboletas pairavam na cozinha. Pairavam no tecto, ou na parede mas junto dele.

Sempre fora interessado pelo tópico da magia negra, embora não percebesse nada do assunto.

Tentou entoar uma canção:

E no sonho que lá vai
E se arranha pelo chão
E se lança pelo céu
E aperta a gravata

E pertence a um só céu
E pertence a uma lua...

É impossível ser coerente, pensou. "Com tanta humanidade a falhar... A única verdade é que ninguém é perfeito -- isto é, coerente."

A verdade

A verdade que saía de dentro dele recordava-lhe "fantasmas" internos. Não físicos (porque "fantasmas"), mas apenas memórias que o atormentavam, porque sentia que elas coloriam as paredes dos prédios onde habitava e o faziam sentir como se a parede doesse como ele.

Sentia-se impregnado e alcançado pela cidade em que habitava. Como se a vida humana que o rodeava lhe fosse outorgando um legado de humanidade -- tão premente, tão presente, e ao mesmo tempo carente de felicidade. Era patente que os sentimentos de rebeldia andavam à solta na cidade -- ingratidões não esquecidas, segundos da vida em que se tropeçara.

A cidade, no entanto, abrira-lhe as portas da alma como uma euforia constante, se esta fosse palpável nas noites frenéticas em que se esvaía do mundo numa discoteca algures, ou se perdia de sono num escritório, ou se maravilhasse com o Sol e a vida maravilhante que Macau possuía durante a tarde da semana laboral, em que a cidade (multiplicada em pessoas) se cruzava pelas ruas por volta do Banco Nacional Ultramarino.

Saíra de casa à procura de brisa. Uma tarde escaldante esperava-o quando parou no semáforo da Avenida Almeida Ribeiro, exactamente quando tencionava atravessar pedonalmente a avenida, vindo da esquina do Banco da China, dirigindo-se para a esquina do BNU.

Pensou na tristeza toda deste mundo e atravessou a rua, sabendo que o aguardava um futuro penoso, não digno da responsabilidade humana que lhe competia.

A sua vaidade natural quase se esvaiu e sentiu como se um atropelamento gigântico se lhe doesse na alma. As forças interiores obviamente não lhe estavam a poupar as vísceras, uma bifurcação interna.

O portfólio humano

O grito sai pelas entranhas silenciosas.

O homem quer colar-se à cidade, não só a que se vê de lá de fora, em andamento, mas também à que se vê daqui de dentro de casa.

O homem libertou-se ao ver adormecidos seus colegas e soltou-se feito fera. Longe dos ouvidos, dos zumbidos, das tristezas.

O homem grita porque quer estar presente na cidade. Porque quer ser parte da vida de toda a gente -- o grande desafio do Homem, ainda hoje. Os sentimentos de respeito e humildade, que parecem nos filmes muito fáceis de obter, na realidade são as "coisas" mais árduas de alcançar -- pelas honras se pejam os homens, lutando e brincando, numa corrente sem fim.

É por isso que eu me perco batalhando futilmente os meus dias, perdendo as horas que me são dadas num dia, ou num suspiro, ou numa recordação.

Perdido em mim mesmo, me acho de verdade. E a verdade que dali (do interior do meu corpo) sai é plena, fortificante, revigorante.

A cegonha

Uma cegonha pelo céu
Sobrevoa a cidade
Onde a vida, de verdade,
É insuficiente e plana.

Uma senhora, dentro da sala,
Compõe fantasias,
Duetos de crianças

A senhora pela estrada
Não pensa em nada

A cegonha que a montanha
Avista, do topo

A gaivota imagina a existência
De um só chão que pisamos